segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Cotas. Até quando meu Deus!


Hehehehehehehe, meu amigo, não me cutuque na ponta do fígado como está fazendo. Como um professor universitário muito consciente do que fez e ainda poderá fazer, esse sistema é, no mínimo, rocambolesco. Você se esforça por dar aulas substantivas, ou seja, aquelas em que se foge o máximo possível das soluções de algibeira, dos modismos, mantras, gurus e curandeiros de toda a ordem que buscam adjetivar o saber. Notadamente nos cursos de humanidades, ensinar essas práticas salvadoras faz com que o aluno, ao se formar, saiba de tudo das novidades na praça lançadas durante os seus quatro ou cinco anos de graduação; ocorre que, no momento seguinte, já estará desatualizado. Existe uma Teoria Científica subjacente ao ensino e estudos das ciências sociais e que deve ser respeitada como alicerce de todo o novo saber. Isso não é feito pois procura-se pasteurizar, padronizar e empacotar o saber, preparando-se os alunos para um mercado mutante. Meanwhile, poucos estão inseridos no custoso contexto de aprender a saber, compreender, digerir, analisar, sintetizar e, só então partir para um abraço. Tiro desse rol, por óbvio, as universidades públicas federais. Nesse diapasão temos que considerar a aculturação e os processos de educação formal e informal dos alunos, desde a primeira infância, criando uma espécie de caldo cultural adrede adquirido. O que falta, infelizmente e por situações odiosas das quais tenho ciência e não se resolvem sem o sacrifício de três ou quatro gerações, é um nivelamento, mesmo por baixo, desde a aprendizagem dos primeiros sons, fonemas, números, letras, palavras, frases e assim por diante. Quando você, após hercúleo esforço de docentes e discentes, consegue uma padrão mínimo ou nível básico de compreensão substantivada, lhe enfiam, goela abaixo, 50% do tamanho da turma formados por novos alunos absolutamente despreparados para acompanhar até o ritmo que você tentava negociar com os antigos. Aí se instala uma terrível "Escolha de Sofia": paro com a evolução normal já negociada com a turma preexistente ou mantenho as coisas como estavam e passo a praticar, com os "cotados" o temível pacto da mediocridade (eu finjo que ensino e vocês fingem que aprendem?)? Não há solução eficiente. Tudo se resolve no campo da politicagem eleitoreira e de uma estúpida ideologização da educação. Se você pretende dar uma solução séria ao problema educacional brasileiro, faça como a Coréia do Sul e comece pela alfabetização, alimentando as crianças, mantendo-as pelos menos oito horas diárias no ambiente escolar e, então, nivelando todos quer sejam os coreanos negros, pardos ou mesmo os índios coreanos. Depois da base feita, faça como a Índia pós-Ghandi que mandou TODOS os formados pelas poucas universidades indianas, para fazer pós-graduação (Lato e Stricto Sensu, Doutorado e Pós-Doutorado). Só então você estará em condições de equalizar o problema EM TODOS OS SEUS NÍVEIS além de alavancar um desenvolvimento realmente sustentável, no fundo a melhor resultante do processo educacional. Basta ver que a Índia, hoje, possui a maior quantidade de doutores em todo o mundo e conseguiu desenvolver o maior cluster em Tecnologia e Ciência da Informação e da Computação, passando inclusive o Vale do Silício na Califórnia. Enquanto isso, a Coréia do Sul ostenta níveis de excelência educacional e padrão de vida do povo (índice IHS e outros parâmetros melhores ainda) comparáveis à Escandinávia. Mas no Brasil as coisas se fazem por quilos, no caso por toneladas, justamente para comprovar nosso complexo de commoditie. Em suma, a corrupção não deixa as verbas chegarem às pontas dos sistemas que necessitam delas como camelos não entijolados há mais de noventa dias perdidos no Saara; não existe planejamento exceto para um universo de QUINZE MINUTOS, isto é, o tempo necessário pra se dar bem numa jogada mensaleira, por exemplo; não se resolve a questão levantada pela necessidade de cotistas, de forma estrutural, daí restando um círculo vicioso que explode na cara dos mais necessitados. Não existem soluções milagrosas do tipo sopa de pedra para os famintos. Sem dinheiro não se chega a lugar nenhum, da mesma forma que um navio que desconhece seu destino final, sabendo apenas a primeira escalada em um portinho escondido no meio de nada. Assim como as Bolsas apenas resultam em números fantasiosos de extinção da pobreza, já que ninguém fala sobre os milhões que já regrediram pela falta de políticas públicas de sustentação dos avanços ou ainda contrapartidas sérias dos beneficiados; dessa mesma forma as cotas, com brilhantes exceções de pessoas que se fizeram na vida com um portentoso sacrifício individual, a exemplo do Ministro Joaquim Barbosa, levarão milhões de negros, mulatos, índios e outras "minorias" a um limbo de incompetência, portando um lustroso diploma na mão, e que não os levará, nem o Brasil, a nenhum lugar de destaque. Na Coréia do Sul o ensino está socializado e a profissão de professor, desde os de alfabetização até dos PHZ's (já passaram por D, E, F etc.), têm um PISO salarial de 12.000,00 DÓLARES. Isso é criar uma solução para um país dividido e destroçado no início da década de 50, por uma guerra civil devastadora e utilizada pelas grandes potências como marketing de suas benesses. Eu lamento muito isso tudo, principalmente porque, gosto de repetir, vejo que a solução está na vontade de gerações futuras, bem distantes do tempo de minha própria história!

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Ufa, foi por um triz!!!!!!!

O que sempre nos foi passado como coisa de ficção científica, agora mostra sua verdadeira cara: existe a possibilidade de sermos extintos, como os dinossauros, por um baita corpo celeste que colida com nosso garboso e azul planetinha. A ciência, infelizmente, é vista como o campo da busca da verdade. Ora, meus amigos, a essência da verdade jamais existiu nem existirá. Os fatos são percebidos por mentes diferentes. Também são insuflados de valores, nossos valores, e todos os juízos factuais transformam-se em juízos éticos. Logo, a ciência é, no fundo, a melhor explicação, a mais lógica sobre todos os fenômenos em geral, ou cada um em particular. Nunca a humanidade deu saltos tão gigantescos como no pós guerra, justamente pelo avanço da ciência e da tecnologia. Fazemos coisas que eram ficção há 24 horas e hoje podem estar nos balcões de consumo até do pobre continente africano. Mas, ninguém se iluda, dois pontos importantes há a observar: o uso que fazemos desse cabedal de conhecimento NÃO É DIRECIONADO POR MOTIVAÇÕES ÉTICAS. Por outro lado, o que antes era universalmente aceito como uma Teoria, nunca pode ser considerado eterno, imutável e universal. Nossas percepções mudam, até impulsionadas pela própria ciência. Gosto sempre de lembrar os dois mil anos no qual a Teoria Geocêntrica foi aceita por todas as comunidades intelectualizadas da época, até por imposição da Igreja. A Teoria Heliocêntrica, um verdadeiro oposto a essa "verdade" veio fazê-la ruir e, hoje penso, estará ela certa? Cacete, estamos todos quietos em casa, os astrônomos e os imensos telescópios, até postados longe da terra, perscrutando o Cosmos infinito (ou quase), sempre nos tranquilizaram sobre a quase impossibilidade de sermos atingidos por um corpo celeste. Como a astronomia possui linguagem matemática ela tem que adentrar na estatística, dentro da Teoria dos Limites (que tendem mas nunca chegam), e aceitar que existem POSSIBILIDADES nunca CERTEZAS de que esse fato jamais se sucederá. Sempre fomos tranquilizados quanto a isto; existe uma chance em um quatrilhão de eventos, que tragam um puta cometa pra destruir nosso planeta; só nunca inverteram a ordem da frase para dizer que TEMOS UMA CHANCE REAL, AINDA QUE REMOTA, de sermos arrebentados por um corpo celeste. Ou ainda, coisa parecida, que um pequeno desses corpos, que se agiganta nos estragos, venha a cair não nas estepes russas mas no meio de Manhattan, dizimando milhões de pessoas. Porra, o fragmento que caiu na Rússia, absolutamente despercebido pelos nossos múltiplos e potentíssimos meios de percepção de altíssima tecnologia, trouxe uns pipocozinhos  equivalentes só a TRINTA BOMBAS ATÔMICAS JOGADAS EM HIROSHIMA. Uns estalinhos de nada! Ninguém falou antes. Ninguém avisou. Temos escudos protetores de armas, geringonças fantasmagóricas do Guerra nas Estrelas do Reagan, mas incapazes de perceber uma caixa de sapatos ou melhor, vamos combinar, um fusquinha que, de repente, assume condição apocalíptica. E olha que um troço do tamanho de meio campo de futebol passou raspando por nós, no mesmo dia, em sentido contrário. Os caras viajam algo como 30.000 km/h. Já imaginaram se essas duas coisinhas se chocam a 10.000 km de altitude em cima da Terra. Acaba tudo, meu amigo! E agora não estamos usando a malfadada, malsinada e mal amada Teoria da Conspiração. Estou lidando com fatos, my friend. Escapamos por pouco. E sempre somos levados a pensar que, pela terrivelmente tranquilizadora estatística, esse fato só se repetirá daqui a três bilhões de anos. Duvido muito. Mas, mesmo que assim seja, nesse tempo ainda provavelmente terão parentes nossos por aqui, ou não? Sei lá! Só sei que a ciência caminha pela refutação das teorias e que, de vez em sempre, trás uma nova "verdade" em substituição a outra. Assim a ciência avança como tijolos numa parede em uma construção inacabável. Sei não, mas se eu fosse dos governos que dirigem a NASA, a Agência Espacial da Rússia ou da China, mandava chamar esses espiões do Cosmos e enfiava metas fatais na cara deles, do tipo: me remonta uma teoria séria sobre essa porcaria, se não mando todo mundo pra rua e deixo nosso futuro ao que parece ser o que ele sempre foi: pura obra do acaso ou plano de Deus! Né?

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

O Aleijado

Realmente não entendo por que coisas acontecem em meu cotidiano com uma carga emocional fora dos padrões. Costumo, imediatamente, passar essas impressões para o papel antes que algum esquecimento de memória recente volte a me atingir. Vezes há em que fico pensando que meus poucos e eventuais leitores chegam a desconfiar se essas coisas realmente sucederam comigo. Esteja certo que, perto de encerrar a ópera, jamais usaria tamanha insensatez de mentir com emoção e descaramento; pisotear o sentimento de meus amigos, colegas e companheiros de jornada só para, muito eventualmente, ser admirado por dois ou três. Minha toca fica a cerca de cem metros do pequeno escritório onde trabalho, aqui nessa morna, morena e gostosa Belém do Pará. Faço o percurso diário com alguma rapidez e, geralmente, ando de cabeça abaixada, quase sempre contando pra mim mesmo as desventuras de meu ocaso, tentando multiplicar meus caraminguás e, principalmente, descobrindo a quem venderei o almoço pra comprar a janta. Isso é uma preocupação filosófica de monta. Ademais, é só na necessidade que o ser humano cresce. Parece masoquismo mas é só pintar uma dificuldade maior que a de ontem para aquela, com justificativa,veia poética, romântica e apaixonada surgir do nada. Pois estava eu com minhas elucubrações quando me chamou a atenção um som como passos fortes que vinha em minha direção, no sentido contrário da calçada. Levantei a cabeça e divisei, a uns dez metros, a figura de um aleijado (desculpem mas não cultuo a falsidade do politicamente correto e costumo chamar as coisas pelo nome que conheço, sem metaforizar ou sinonimizar). Ele era muito baixo sem ser anão; tinha as pernas pequenas e me pareceram disformes em baixio do arremedo de calça comprida. Deviam ter uns trinta centímetros. Ele se apoiava em duas muletas de metal, bem na frente do corpo, depois jogava as duas pernas e assim por diante, parecendo um canguru. Se deslocava com uma enorme rapidez para a dificuldade enfrentada, me lembrando um vira-lata que passa pelas ruas trotando rápido como se fosse a uma reunião de negócios. Claro que o homem não me lembrou o cachorro, mas sua rapidez de caminhar. Quando estava a uns quatro metros dei um bom dia como faço a todos os passantes mesmo desconhecidos. Sou fiel à lição de meu avô português de aldeia e que dizia ser indispensável dar-se um bom dia a todas as pessoas com as quais não se tenha dormido no mesmo quarto. Sempre mando esse cumprimento com algum recato pois aqui na minha terra tenho levado muitas omissões de resposta. Confesso que também temi que o homem pensasse que a comiseração me havia movido e eu estaria cumprindo com a minha boa ação para ganhar o dia como bom cristão. Que ledo engano! O homem me devolveu um bom dia com centenas de decibéis acima do meu, acrescido de um sorriso cativante e que expôs, a quem quisesse ver, duas fileiras muito brancas e bem cuidadas de dentes obviamente naturais. Evidente que o primeiro sentimento que me apossou foi a enorme vergonha de estar passeando de braços dados com minha autopiedade. Depois me assomou uma enorme esperança de que ainda vale à pena viver e acreditar nessa porra de humanidade. Aquele ser, marcado desde a nascença por uma dificuldade natural que triplica todas as demais adquiridas, passou como um vento morno de renovação de minhas esperanças ainda que desgastadas. Ao encerrar este texto ainda me martela docemente nos ouvidos aquele som dos seus passos: tum, tum. tum, tum.......cada vez mais sumindo no horizonte de minha consciência enquanto alimentava minha alma como um renovo vindo não sei de quê. Muito obrigado, meu amigo aleijado no físico e o mais saudável de todos, no espírito.

sábado, 9 de fevereiro de 2013

Comer cavalo ou comer merda?


-          5ª macrotendência: O problema da fome.

Conforme KURZ (1998: 3), há um padrão bem simples para poder avaliar a verdadeira qualidade de uma época: o panorama da alimentação, onde uma cultura revela a sua capacidade mais elementar de satisfazer suas necessidades. Em todas as sociedades anteriores as pessoas teriam vivido de cascas emboloradas de pão, à beira da fome constante; apenas a miraculosa economia de mercado teria solucionado o problema da provisão de alimentos em abundância e de ótima qualidade. Esse quadro faz pouco da realidade, pois exatamente o contrário é verdadeiro.
É certo que a civilização moderna elevou a produtividade agropecuária para além de todos os limites imagináveis, não menos verdade é que submeteu a uma alimentação miserável ou mesmo aos tormentos da fome um número de pessoas sem precedentes, tanto em termos absolutos quanto em relativos. A economia de mercado está mais uma vez – após a experiência liberal da era moderna – disposta a agravar dramaticamente, no final do século 20, a contenção de alimentos e abandonar à míngua, de forma constante ou temporária, quase 6 bilhões de pessoas.
A melhora da provisão mundial de alimentos, nos anos 60 e 70, foi passageira; desde os anos 80 a fome e a desnutrição se expandem. E não somente o continente africano fornece imagens aterradoras de crianças em pele e osso e de lactentes que sugam em vão os seios descarnados de suas mães. O mundo do mercado acostumou-se com essas cenas, que agora já deixaram de nos chocar. Mas o fantasma da fome reaparece onde parecia estar banido para sempre.
Mineiros e suas famílias da região da Ucrânia ou da Sibéria, aposentados de Moscou, crianças de rua em todo o leste europeu passam tanta fome quanto boa parte da população da América Latina e sul da Ásia. Segundo um relatório do UNICEF, a cada ano morrem mais de 7 milhões de crianças, vítimas da subnutrição. E o maior modelo de sucesso neoliberal consiste na universalização da cozinha dos pobres.
A fome regressou até mesmo nos centros industriais do Ocidente. Ainda que pelo menos um membro da família tenha emprego, 30 milhões de norte-americanos encontram-se hoje, em decorrência dos literais salários de fome, numa situação precária de alimentação; dentre eles, 26 milhões dependem mensalmente de refeições públicas ou doações privadas, mais de 4 milhões de adultos passam fome de modo esporádico ou diário, 11 milhões de crianças estão subnutridas e em quase 1 milhão de lares não há, muitas vezes, o que comer durante dias, dados estes fornecidos pelo Ministério da Agricultura dos EUA ou de organizações beneficentes como a Second Harvest.
O pretenso capitalismo social alemão também permite, segundo dados confiáveis da Associação Alemã para a Defesa da Criança, que as famílias pobres vejam aumentar cada vez mais o índice de mortalidade ou doenças em seus filhos, graças à alimentação deficiente. Alguns professores de bairros com alta incidência de desemprego relatam que, ao final do mês, não é raro que crianças da pré-escola desmaiem por falta de comida, já que os pais não lhes podem pagar o café da manhã ou o almoço. Em muitas escolas, tornou-se comum estudantes famintos mendigarem pão a seus colegas mais remediados.
Todas essas atrocidades não remontam ao fato de uma taxa de natalidade muito elevada ter conduzido a um excesso de população que, com as atuais possibilidades técnicas, é incapaz de ser alimentada e deve de algum modo ser neutralizada, conforme o prognóstico de Malthus, já mencionado em outra parte deste ensaio. Ao contrário, do século 18 até hoje as forças produtivas cresceram com velocidade infinitamente maior do que a população mundial. Caso se tratasse da potência produtiva, o dobro da população atual poderia ser facilmente alimentada com folga e abundância. O limite social da produção e da distribuição de alimentos não é determinado por rendimentos agrícolas insuficientes em relação ao contingente populacional, mas pela forma econômica do moderno sistema produtor de mercadorias.
A lógica da rentabilidade empresarial exige uma restrição irracional de recursos, que vem à luz de forma mais drástica no plano elementar da alimentação. Em princípio, as pessoas só têm acesso aos alimento com a ressalva de que a sua força de trabalho seja usada de forma rentável. Se não preencher esse requisito, no caso da produtividade muito alta tornar supérflua sua força de trabalho, elas são mantidas a rações de fome, apesar de a capacidade de produção de alimentos ter crescido.
Decisiva não é a necessidade vital, mas o maior preço a ser alcançado. O caráter absurdo desse requisito fica bem claro na produção agrária, pois nela o resultado não depende só de quanto capital foi investido. Uma super colheita, antes recebida com júbilo, para o cálculo empresarial do agribusiness ela representa uma fatalidade, pois, com o excedente, os preços são reduzidos, fazendo parte do cotidiano dos negócios mercantis, em caso de colheitas recordes, queimar em massa produtos agrícolas ou desnaturá-los por meio de processos industriais – óleo de soja, rações para animais, etc. – enquanto bem ao lado as pessoas morrem de fome.
A mesma racionalidade empresarial acarreta não apenas a fome em massa, mas também degrada a qualidade dos alimentos em níveis incrivelmente baixos. Nem a cultura da embalagem é capaz de nos iludir, com todo o seu colorido e sua higiene superficial. A lógica da redução de custos faz com que a indústria alimentícia retire ingredientes básicos de seus produtos externamente tão vistosos, a fim de torná-los rentáveis. Fast food e comidas instantâneas simulam uma qualidade que não possuem. Um pacote de sopa de galinha da empresa alemã Knorr, com rendimento de quatro pratos, contém somente 2 gramas de galinha desidratada, em bolotinhas.
Dessa maneira, produz-se uma sensação permanente de fome, que enseja o consumo de mais alimentos com baixo teor de proteínas. O resultado são pessoas doentes, inchadas, que não vivem melhor do que os esfomeados, além do incentivo à indústria dos complementos alimentares na forma de vitaminas, minerais, etc., que deveriam estar contidos numa alimentação balanceada.
As grandes empresas de produtos alimentícios fazem de tudo para maximizar os lucros e iludir os consumidores, criando produtos e gerando resultados que podem ser facilmente elencados:

a -  camarões rosáceos congelados, não passam de carne de peixe de segunda, tingida com colorante e comprimida em forma de camarões;
b -  na Itália, é comum encontrar-se material cancerígeno no macarrão, proveniente das embalagens;
c -   nos transportes de alimentos com exigência de temperatura de 7ºC, foi constatada a temperatura de 25ºC e a não lavagem dos compartimentos depois de desembarcados os produtos;
d -  a metade dos frangos comprados na União Européia está infectada por bactérias, quintuplicando os casos de salmonelose na Alemanha, entre 1985 e 1992;
e -  a doença da vaca louca surgiu com a pulverização da forragem do gado com restos de ovelhas contaminadas;
f -    diminui a variedade de sabores pois a distribuição continental e transcontinental permite um espectro diminuto de produtos básicos segundo as normas de acondicionamento, deixando de lado, como supérfluos, milhares de frutas e legumes e centenas de espécies de animais comestíveis;
g -  a cerveja pode conter cascos de animais pulverizados e o chocolate, sangue desidratado;
h -  com os sabores sintéticos os produtos têm custo muito menor do que usando frutas verdadeiras, biomassas desnaturadas e insípidas são injetadas com substâncias aromáticas, daí resultando uma estrutura molecular correspondente a sabor de galinha quase idêntica ao de morango;
i -    no Japão, cientistas criaram um hambúrguer – toalete que contém como ingredientes papel higiênico e excrementos, submetidos a uma temperatura extremamente elevada e acrescidos de proteínas de soja, obtendo como produto um granulado que há de servir como substituto para a carne.
Tudo isso é economia de mercado. Mas tudo é relativo, retrucaria a ideologia pós-moderna. E por que o homem capitalista não seria privado também de seu paladar? Em teste numa escola alemã, as crianças foram incapazes de identificar o sabor  “amargo”. Os administradores modernos, maiores incentivadores da criação do hábito de comer andando (food on the run) e comer no carro (food on the ride) ingerem substâncias que um camponês da Idade Média não daria sequer aos porcos.
A macrotendência óbvia que se desenha para as próximas décadas é a de que os pobres continuarão a passar fome por não terem dinheiro e os ricos prosseguirão pagando pelo direito de passar fome.


Salve Cissa!

Nunca tive oportunidade de expressar minha enorme admiração por Cissa Guimarães. Suportou a maior dor que um ser humano pode aguentar (enterrar um filho jovem e saudável e ainda sendo mãe) com uma altivez que passa sinceridade pelos poros. Diferente da contenção pública dos nobres europeus, Cissa consegue navegar pela tristeza de uma forma doce. Não se descabelou, como sói acontecer em casos tais; ao contrário, fechou-se na dor mas sem jamais se negar para a serenidade. Cultuou a forma mais dura de expressão de um sofrimento e que é a lágrima, grossa e pesada, descendo face abaixo, sem, gritos e desesperos tão comuns nessas horas - o chororô de Gil. Seus protestos, até por serem comedidos mas firmes e contundentes tal um grito silencioso, valem por mil berros. Nunca a vi ao vivo. Não a conheço e provavelmente nunca nos veremos ou trocaremos uma palavra sequer. Até talvez por isso eu esteja deixando minha gratidão aqui expressa. Sim, gratidão em nome dos que partem diuturnamente, tombados nessa guerra sem quartel em que se transformou o trânsito de veículos no Brasil. Salve Cissa!

Filosofia barata

Não sei por que tenho estado muito sensível para escrever frases de filosofia de botequim. Vai mais essa que, na hipótese de ninguém a ter lido, inventei agora:
Paixões são essenciais para o sonho. O amor romântico e duradouro é o combustível da eternidade!
Pela enésima vez bato na tecla de que já estamos vivendo um processo quase irreversível de espiral inflacionária. As grandes conquistas do povo brasileiro no final do século passado, a estabilidade econômica e o domínio de um processo histórico de inflação, estão indo pelo ralo. Talvez as novas gerações não se apercebam do insidioso momento até porque não o viveram em plenitude. Não têm a menor ideia do que foi difícil para domarmos uma cultura inflacionária enraizada no inconsciente coletivo do povo brasileiro. Foi penoso mas delicioso nos acostumarmos com a ideia de que um produto poderia ficar nas prateleiras custando o mesmo preço por anos. Como esse é um problema percebido no bolso de todos mas entendido pela mente de poucos, os aumentos meramente especulativos e já com o processo odioso de inclusão de expectativas de inflação futura, já estão sendo praticados pelos supermercados à solta. Cheguei em Belém em 2011. Em outubro desse ano comprava uma latinha de cerveja Kaiser (por ser a mais barata) custava 1,00 real na loja de conveniência do posto da esquina, com bandeira Texaco. No carnaval de 2012 esse preço passou para 1,50 (imensos 50% de acréscimo, absolutamente sem base em qualquer reajuste de insumos). Por ocasião do Círio de Nazaré, em outubro de 2012 meu produto-exemplo passou a custar 1,70 (13,33% a mais). Ontem, às vésperas do Carnaval, já me venderam a 2,00 (17,64% DE LAPADA). Em cerca de 16 meses esse produto teve um acréscimo de exatos 100% isto numa economia que, no mesmo período, mal passou de 1% de crescimento. Produção estagnada ou em declínio; números da economia artificialmente mantidos pela renúncia fiscal e explosivo, inflacionariamente falando, incremento do consumo e que cria um falso ar de progresso; expansão monetária sem a devida contrapartida no aumento de produção e produtividade; despesas correntes no setor público saindo pelo ladrão, em sentido figurado e REAL. Já vimos esse filme antes. Agora só falta recriar os planos econômicos e iniciar um histriônico processo de congelamento de preços como fez a Argentina. Minha cerveja aumenta em épocas de circo e, mesmo se faltar o pão, o preço não vai baixar. O povo está sendo enganado por um ilusório desconto no valor da energia e que já foi engolido antes de chegar às contas de luz residenciais; também por um represamento no aumento das passagens de ônibus, metrôs e trens nas principais capitais brasileiras. Repito, com terror, todos nós que sabemos pensar e analisar já vimos essa película e conhecemos seu final. Engraçado que os empregados, aqueles mesmo que ganham mal e serão os mais penalizados, ficam putos quando reclamamos, pelo menos isto acontece aqui em Belém do Pará. Parece que estamos falando mal de suas famílias. Desgraçados ignorantes que mal sabem que a parte mais dura da conta vai ser paga por eles. Eu consigo até conviver com Mensalão, Renan Calheiros, defesas apaixonadas dessa camarilha petista. Meu rabo aceita de volta isso tudo mas, pelo amor de Deus, vamos fazer alguma coisa contra a volta desse terrível imposto. Estou com vontade de aprontar um simples cartaz em cartolina e me postar nas imediações do posto levantando-o enquanto tiver forças: Não compre nesta loja de conveniência. Ela aumenta seus preços de forma especulativa e contribui para a volta da inflação. O que vocês acham de fazer o mesmo. Afinal, por algo parecido, os famintos de Paris fizeram a Revolução Francesa e os esfomeados da Rússia, a Revolução Comunista.Complexo assim!